Riscos Costeiros: Paciência e Planeamento





A sucessão de eventos que afectaram o Japão no dia 11-03-2011 devem fazer reflectir os mais incautos sobre as consequências devastadoras dos riscos naturais. À semelhança do ocorrido com o tsunami de 26-12-2004, a opinião pública portuguesa voltou a ouvir falar que afinal Portugal tem, em termos europeus, um risco sísmico e tsunamigénico bastante relevante.
1755 foi relembrado. Tornámos a ouvir que algo deve ser feito, que a legislação deve ser reforçada, que a protecção civil deve ter mais meios, que o sistema educativo deve preparar as populações mas, mais uma vez, outras prioridades se sobrepõem e, infelizmente, os calendários políticos irão sempre sobrepor-se. As soluções, embora ignoradas, são conhecidas no entanto, uma vez perdido o interesse mediático o que irá realmente mudar? Pouco, muito pouco. Até que um dia, sejamos expostos aos nossos erros de planeamento e só nos reste lamentar a falta acção e coordenação. Paciência (=inacção) dirão alguns inconscientes dos intervalos de recorrência deste tipo de eventos!
A nossa faixa costeira é densamente povoada e é lá que se encontram os alicerces do nosso sistema económico. Contra uma inevitabilidade como um sismo ou um tsunami só resta a prevenção e o planeamento. Informar, planear, explicar, divulgar e agir preventivamente. No entanto, é aí que está a nossa falha. Em Portugal não tem existido uma verdadeira política de planeamento da orla costeira. As poucas iniciativas positivas são sempre recebidas com desagrado e forte contestação por empresários, autarquias e populações. Mexem com interesses instalados. E muitas vezes esses Planos de Ordenamento da Orla Costeira quando passam dos técnicos para os agentes políticos acabam por ficar a longe dos objectivos propostos… Os custos a curto prazo fazem com que se ignore as vantagens a médio e longo prazo. Mas eu, ingenuamente, pergunto se a definição de políticas não deve colocar o interesse geral à frente do “pequeno” interesse?
Vejam-se os erros com a proliferação de barragens (até em zonas com algum risco sísmico – ex. barragem do Baixo Sabôr). Alguém mediu as consequências erosivas para as faixas costeiras dos sedimentos que ficam retidos nessas barragens e que, se seguissem o seu curso normal, seriam transportados pelos rios e entrariam na deriva costeira, alimentando as praias? Não se podia ter previsto\poupado os milhares de euros que têm que ser investidos na alimentação artificial de praias. A questão é que quando interferimos com a Natureza sabemos que toda a acção irá desencadear uma reacção do sistema natural que se procura reequilibrar. Acabámos por criar um ciclo vicioso e mexer com o equilíbrio natural. Mas claro é mais fácil falar das mudanças climáticas…literalmente, sacudir a água do capote!
A noção de tempo é um factor importante que deve ser compreendido pelos políticos. Apenas um debate sério, alargado pode conduzir a uma redefinição e aplicação de uma nova política costeira. Um planeamento (=acção) a sério e que consiga congregar o interesse geral.
Lanço a questão, que orla costeira deixaremos aos nossos filhos quando fizermos 900 anos como país, em 2043?
Até lá duas hipóteses: planeamento ou paciência!

Pedro J M Costa – investigador científico e geólogo

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