O Pós Chumbo


Tal como a generalidade dos Portugueses, segui com especial atenção o chumbo do PEC IV e a consequente demissão do Primeiro-Ministro. Duas notas sobre o pós-chumbo.

1.      

Vi estampado no rosto de muitos a felicidade pela demissão de José Sócrates. Porém, vi poucos entusiasmados com a possibilidade de Pedro Passos Coelho, líder do maior Partido da Oposição, ser futuro Primeiro-Ministro de Portugal.

Por isso, assaltou-me uma dúvida: se o Povo não quer José Sócrates, nem Pedro Passos Coelho, quem quer?!

Para além desta primeira dúvida, assaltou-me uma outra: o que é que o PSD pretende para o País? Tal como 99,9% dos Portugueses, desconheço o rumo do maior partido da Oposição, as suas ideias e os putativos concretizadores de um projecto laranja. E isso preocupa-me. Preocupa-me já que não passo cheques em branco a ninguém, nem acho prudente que alguém o faça.

O PSD sabe que quer o poder e que não quer o PS no poder . Mas não sabe mais nada.

No chumbo do PEC, por exemplo, Pedro Passos Coelho e o PSD reconheceram a necessidade de mais e provavelmente mais duras medidas de restrição orçamental e de impulso da economia (foi isso, aliás, que Pedro Passos Coelho foi transmitir aos líderes europeus, no final da semana passada), mas foram incapazes de apresentar uma única alternativa. Este comportamento, mais do que eleitoralismo, parece-me irresponsabilidade.

Em democracia, é muito pouco dizer que não se vai por aí. Ainda para mais, quando está em causa um Partido que aspira a ser poder. Por isso, não me espanta que, mesmo entre as hostes sociais-democratas, muitos não escondam a esperança de que o próximo Primeiro-Ministro ainda seja um Rui Rio ou um Paulo Rangel.

2.      

Múltiplos são os jornalistas, comentadores e analistas que defendem a importância de um Governo com amplo suporte parlamentar. Concordo com esta ideia. Lamento, aliás, que esta ideia se tenha enraizado tão tarde e a título de remendo.

Considero que se alguém podia/devia ter tido uma atitude activa na promoção de um Governo com amplo suporte parlamentar, no início da legislatura que ora finda, esse alguém era o Presidente da República, Cavaco Silva. Sucede que, como é do domínio público, Cavaco não só não promoveu esse entendimento como, do alto da sua poltrona, viu um Governo nascer, crescer e morrer, sem mexer uma palha.

Diz o Povo que mais vale prevenir do que remediar. Como não se preveniu (leia-se, não se promoveu o aparecimento de um Governo com amplo suporte parlamentar), julgo que mais vale fazê-lo agora do que nunca…Por isso, gostava que PS e PSD esclarecessem, antes do acto eleitoral, se estão (ou não) dispostos a integrar um Governo de coligação. E que esse esclarecimento fosse prestado de forma inequívoca, já que nem Portugal, nem muito menos o bolso dos Portugueses, aguentam mais jogadas e/ou deslealdades políticas.

Julgo que ambos os Partidos devem esse esclarecimento ao País. Mais do que nunca, o supremo interesse nacional tem que se impor às pessoas e/ou questiúnculas político-partidárias.

Artigo publicado no Diário de Viseu

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