NÃO PODEMOS IGNORAR…

Foram muitos e muitas, desceram ordeiramente a Av. Da Liberdade. Aos jovens juntaram-se os menos jovens para afirmarem um protesto comum de inconformismo, simbolizado na palavra de ordem «geração à rasca».
Foi uma manifestação ordeira, um grito de revolta de profunda maturidade cívica e política de um povo que entre altos e baixos tem vindo a inscrever nas páginas de uma história comum um percurso glorioso de desaforo, alento e coragem.
Ignorar este sinal constituirá um profundo estado de cegueira e um erro que a nossa história futura não mais iria perdoar. Integrá-lo na procura de soluções inovadoras para esta crise paralisante parece constituir a alternativa incontornável, sinal de quem sabe e quer construir em conjunto, superando o avassalador individualismo que torna o futuro imprevisível nesta era de globalização.
Não podemos ignorar…
Não podemos ignorar a crise de valores e de modelo de dominação associada à crise económica e financeira. Resolver uma, sem inverter a outra, significa caminhar na reprodução de modelos que já se mostraram desadequados para a centralidade do indivíduo nesta época onde a solidariedade e o reforço dos afectos deverão ser a alternância à era do vazio de que Lipovetsky nos falava.
O capitalismo especulativo e sem valores éticos que a crise financeira revelou, como Mário Soares escreveu no DN, está desacreditado, ignora as pessoas e deixa-nos numa tremenda dificuldade.

Precisamos de uma sociedade de capital humano desenvolvida, onde a solidariedade, a partilha e a igualdade sejam um valor de excelência para a construção de uma economia mais amiga do ambiente e mais inclusiva, que aproveite todo o potencial humano de que a humanidade dispõe.

Uma economia mais inteligente na forma como se definem prioridades, como se gere a coisa pública e se estabelecem lideranças que permitam a emergência da criatividade e da inovação.
Não há soluções pré-definidas, o que não quer dizer que não haja soluções. Saibamos nós ter a coragem de mudar de paradigma e inventar uma nova civilização e as soluções aparecerão.

Não se trata de uma visão utópica, mas de uma visão realista, de uma visão que ao ter já acreditado no percurso colectivo das mulheres, como dizia Maria de Lurdes Pintasilgo, viu as políticas serem orientadas - com as dificuldades que conhecemos, é certo, mas ainda assim, orientadas, porque deixaram de ignorar - para a promoção da igualdade e da não discriminação como sustentáculos de um mundo mais humano, que é hoje já uma referência para todos e todas nós.
Elza Pais, Socióloga, Secretária de Estado da Igualdade. - Lisboa, 16 de Março de 2011

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