Europeias e Participação Jovem - Uma Realidade e Um Desafio.

João Pedro Vieira
Estudante de Medicina

Ao longo das últimas semanas cruzaram-se por este espaço de reflexão inúmeras personalidades, todas elas, pelo menos na liberdade de pensamento, jovens como eu, que partilharam com quem por aqui vai passando diferentes perspetivas sobre a Europa, as eleições europeias que se aproximam e a importância da participação cívica jovem nos processos de decisão e construção política de uma Europa mais forte, mais capaz e mais concordante com os princípios fundadores que a originaram. É ao último ponto, o da participação jovem, que me prenderei nas linhas que agora partilho convosco.
Sobre a participação jovem na vida política da nossa nação enquanto membro do espaço europeu, existem dois factos que todos, creio, damos por consumados: o primeiro, relativo aos fracos níveis de participação jovem no debate de ideias e nos momentos eleitorais, processos dos quais resulta, idealmente, a construção da Europa em que vivemos; e o segundo, o da urgência de reverter essa realidade de fraca, por vezes quase inexistente, participação. É da experiência pessoal que fui acumulando ao longo dos últimos anos que resulta a confirmação desta infeliz realidade – estabelecida e de difícil reversão. É da sistemática passagem por salas de debate francamente vazias e por instituições com fracos níveis de discussão sobre o fundamental que retiro a infeliz conclusão de que a pergunta «como atrair os jovens para a discussão das matérias essenciais para a construção do futuro?» é uma equação de difícil resolução, ou, se preferirem, um diagnóstico de difícil tratamento. 
As premissas da participação jovem estão hoje todas elas devidamente identificadas – e num primeiro plano, provavelmente o mais imediato e quantificável, passa pela participação no processo eleitoral em curso. Num primeiro momento através do envolvimento ativo no processo político de discussão das ideias, do qual resultam, ou deviam resultar, os manifestos eleitorais apresentados; e num segundo momento através do voto, procurando contrariar-se os repetidos níveis de abstenção sistematicamente verificados.
Receio, confesso, que o primeiro tenha sido francamente defraudado: exigir participação jovem ativa passa por chamar para a construção dos manifestos e das equipas que os colocam em prática os jovens, nomeadamente através das juventudes partidárias a que pertencem e que idealmente os representam. Coibir-me-ei de fazer o exercício que já outros fizeram, e bem, de contar quantos são os jovens em posição elegível que compõem as listas partidárias candidatas às próximas eleições europeias – porque daí resulta que à futura representação jovem naquela que será uma das sedes fundamentais de construção do nosso futuro, as eleições europeias pouco ou nada acrescentarão, pouco ou nada alterarão à realidade atual.  
Sobre o segundo momento, o da participação através do voto, um lamento antecipado: à exigência de participação repetidamente lançada às novas gerações, deverão corresponder igualmente perspetivas otimistas dos resultados dessa participação. O mesmo é dizer que não basta recordar essa necessidade de participação fazendo alusão a imponderáveis benefícios para o desenvolvimento social que advirão das escolhas feitas através do voto, antes é necessário que medidas, ideias e metas concretas, para problemas já identificados, consubstanciem essa ação. À juventude atual é solicitada uma manifestação de confiança através do voto, a que não correspondem as perspetivas que nos dão de futuro – e pedir benevolência já não chega, porque existem desafios e exigências que não podem continuar a esperar.
A participação jovem exige, contudo, que observemos a realidade de duas perspetivas: de cima para baixo – e sobre isso estamos conversados -, e de baixo para cima. E por isso, a sensivelmente um mês das eleições europeias, permitam-me uma previsão e um desafio. Daqui a sensivelmente um mês, sabemos bem, vencerão todos: governo, oposição e, novamente, a abstenção. O atual governo não retirará do momento eleitoral qualquer ilação para a sua governação, porque não é para isso que se destinam as eleições europeias; a oposição receberá o seu voto de confiança e o guia de marcha necessário para prosseguir caminho; e a abstenção, essa, será sempre maior do que o esperado – mesmo que, desta e outra vez, tudo tenha sido feito para que fosse diferente. Os jovens continuarão a manter-se alheados da participação política e o país continuará ausente da importante reflexão sobre o futuro da Europa. Dir-nos-ão, daqui a sensivelmente um mês, tudo isto – porque nos disseram sempre e repeti-lo-ão até à exaustão. 24 anos, não sendo muitos, são tantos quantos chegam para saber muito daquilo que vem sendo dito nestas ocasiões. E, talvez por isso, são também os suficientes para, às afirmações que, com mais ou menos fundamento, se vão repetindo, responder com um desafio:
(i)          Aos jovens - para que às acusações de ausência de reflexão e de participação na construção de um país e de uma Europa melhor, respondamos com intervenção e mobilização em prol daquilo em que acreditamos e daquilo que entendemos ser o rumo certo para o futuro da Europa e os princípios basilares da construção de um espaço europeu que responda às nossas necessidades e corresponda às nossas expectativas;
(ii)        Aos dirigentes associativos – para que nas suas Escolas e nas suas Universidades sejam capazes de mobilizar as Associações de Estudantes e as Instituições a que pertencem para a discussão do fundamental, para que recentrem a sua ação naquilo que outrora deu força ao Ensino e à Universidade: uma visão de futuro, uma visão diferente e uma ação concertada em prol de um futuro melhor para o país e para a sociedade em que vivemos;
(iii)      E às juventudes partidárias – para que sejam definitivamente capazes de assumir o seu papel, a sua força e a sua importância na defesa dos desígnios nacionais e europeus, posicionando-se na linha da frente do combate político: não o das bandeiras que se agitarão e das palmas que se baterão durante quatro semanas, mas o do diálogo, o da auscultação e o da irreverência na ação, onde e quando ela for necessária.
Façamos todos aquilo para que sistematicamente apelamos, para que outros tantos nos desafiam e de que cuja falência de processos vimos sofrendo. Falo para dentro, porque é nessa condição que me encontro hoje e é nessa condição, a de jovem, dirigente associativo e militante, que espero, com o contributo de todos, ainda ir a tempo de fazer a diferença e de contrariar a realidade em que nos encontramos. Aos recados que vêm de fora para dentro, à praça pública das lições e dos moralismos que muitos não cumprem mas tentam fazer cumprir, saibamos responder com a ação de uma geração que se revele capaz de afirmar a sua força e vontade de participação. À geração mais qualificada de sempre não poderão corresponder os níveis de participação mais baixos de sempre; à geração com mais liberdade de sempre não poderá corresponder o maior alheamento da realidade de sempre; à geração mais europeia de sempre, não poderá corresponder o maior nível de distanciamento da Europa de sempre. Porque hoje, 40 anos depois de Abril e 30 depois da Europa, não há fronteira que se imponha que não aquela que determinarmos a nós mesmos. Pela Europa, por Portugal e pela Juventude deste país: prossiga-se!

QUE MUDANÇA?



André Matias
Advogado estagiário


Estão à porta as europeias. Ideias novas? Nem uma. A campanha eleitoral há muito que começou mas ninguém quer saber dela. Os partidos estão mais preocupados em trocar galhardetes no recreio. Não há respeito pelo eleitorado. Aquelas cabeças estão tão formatadas e o ambiente em que se movem é de tal forma gémeo daquele em que vivem há tantos anos que não percebem que há “mundo” para lá da “moscambilha” das sedes partidárias.

O eleitorado já percebeu que se uns meteram os pés pelas mãos quando foram governo, agora levamos as mãos à cabeça. Mas nada muda. Em tom de insulto à inteligência de um povo o governo abstém-se agora de comentar os cortes nas pensões e nas reformas. Este é o momento em que do outro lado da televisão o eleitor não diz mas pensa: Eu pareço-lhe estúpido?

É porque se é certo que as Europeias nada têm que ver com os cortes do governo, não é menos verdade que quem vai a votos é um partido e a (des)confinaça que outrora o povo depositou nele quando o sentou nos ministérios.

O PSD não podia! O PSD não devia! Mas fê-lo. Foi além da Troika e além do ultimo buraco no cinto do povo. Está tudo em jogo e os bluffers estão aí: de um lado uma aliança que é tudo menos por Portugal; do outro um líder (in)Seguro que depende das europeias, não para se manter como secretario geral, mas para alguém (além do próprio) acreditar que ele pode ganhar umas legislativas com uma maioria para governar.

 A lista do PS é um tratado de paz. Estão lá todos: dos Açores aos socráticos. Mas não vem daí mal ao mundo se o PS provar que é melhor. É porque isto não são eleições. É o futuro de uma nação.

O próximo governo de Portugal precisa de uma maioria. E este é o tempo em que os partidos têm de fazer um povo acreditar. Este é o tempo em que os partidos têm de olhar e dar mais voz à sociedade civil. Ganhar eleições nunca foi por si só uma MUDANÇA, mas apenas uma oportunidade de mudar alguma coisa.

E como alguém dizia há umas semanas, aquilo que se espera de uma MUDANÇA, é que os melhores de nós sejam os melhores por nós. A acontecer- isto sim -seria uma MUDANÇA. Isto sim seria uma nova voz de Portugal na Europa e no Mundo.



Destruir e/ou Construir: A Mudança


José Pedro Gomes

As situações de desespero e desconfiança proliferam na Europa, e as consequências também já se reconhecem. Uma delas é o aumento do peso da extrema-direita em França.

Esta situação evidencia bem o facto da coesão social estar a ser posta em causa na Europa, enquanto base da democracia e até condição da mesma. As respostas e soluções que esses partidos preconizam são erradas e perigosas e só ganham força devido ao falhanço da Europa e à sua linha de orientação.

Essa linha de orientação, baseada no conservadorismo e liberalismo, tem dado provas do seu valor. Continua a insistir na austeridade pura e dura, não permitindo recursos para o crescimento económico e sem prioridades definidas para o futuro (destruir é fácil, e construir?). É uma austeridade que, apesar do que dizem, não significa poupar. É um empobrecimento que não controla a dívida. É um regresso ao passado, com indicadores sociais a que já não estávamos habituados.

É neste contexto de extremismos, populismos, conservadorismos e retrocessos que, a 2 meses das Eleições Europeias, o PS apresenta a sua lista completa e se coloca, ao contrário do que muitos apregoavam, à frente dos outros.

Estão lá os dossiers fundamentais (Emprego, União Económica e Monetária, Mar, Energia, Ciência e Tecnologia); está lá a experiência e força políticas; está lá a paridade; estão lá os independentes; está lá o profundo conhecimento da política europeia.

Se é pelas ideias e pelo projecto que queremos ganhar (e bem), podemos também estar tranquilos em relação à qualidade dos protagonistas.

O meu maior receio é que uma nova maioria de esquerda democrática na Europa não seja suficiente (nem pode ser um fim em si mesmo) para inverter a austeridade. No entanto, é certamente o único caminho que prevejo para a indução de uma mudança de política na Europa e, por consequência, em Portugal: com rigor orçamental, mas com crescimento e estimulação da nossa economia. No fundo, repetindo-me: destruir é fácil. Que tal construir?

O futuro da Europa está nas nossas mãos


       
Francisca Soromenho
Presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa
 
Para ter Novos Horizontes nem sempre é preciso olhar para longe: por vezes, para alargarmos a vista temos de olhar com o coração, e voltar a encarar de espírito aberto aquilo que já conhecemos. É isso que sinto relativamente à Europa e Eleições Europeias de Maio de 2014.


A crise da Zona Euro deixou-nos a todos com um sabor amargo na boca: a Austeridade comprimiu-nos aonde não devia, emagreceu-nos a alma. Principalmente para os menores de 28 anos que, como eu, nasceram Europeus, numa Comunidade Económica Europeia que, desde Schuman e Jean Monnet, se queria como projeto de união política. É triste chegarmos ao apogeu da nossa vida e perceber que muito do que se esperava era mentira. A cantilena europeia de promessa, promessas de prosperidade com as quais fomos nutridos até à idade adulta, parece falhar-nos de formas imperdoáveis. Somos jovens sem inocência, sem juventude, sem sonhos e sem esperanças. As populares políticas de Austeridade endureceram-nos o raciocínio e tornaram a linguagem áspera. O Estado Social, que aprendemos a valorizar, parece hoje uma bonita ilusão. E já não confiamos, e temos novamente medo.

Tenho medo que o sonho Europeu não passe de um delírio feliz de um pós-guerra excessivamente otimista, e como eu estão muitos eleitores europeus, principalmente os jovens, os que nunca antes sentiram dificuldades como hoje. O The Economist estimou em Janeiro que os eurocéticos à esquerda e direita poderiam ocupar de 16 a 25% dos assentos do Parlamento Europeu, num sinal de crescimento desta tendência a partir dos atuais 12%. Os eurocéticos esquecem-se é do que significaria, em termos económicos, políticos, sociais e humanos, retroceder do projeto Europeu. O que ele é e o que ele significa.

 Vamos ao princípio: a Europa, mais próspera ou mais austera, é uma Europa de segurança. Mas não de uma segurança armada, militarizada, policial, de barreiras e detetores de metais, de serviços secretos e de vigilância constante. A Europa é onde se valoriza a minha liberdade, a minha privacidade e o meu espaço. Na Europa defende-se a dignidade da pessoa humana, de cada pessoa individualmente considerada, e somos todos reconhecidos enquanto tais. Na Europa posso estudar, posso crescer, sou apoiada enquanto jovem empreendedora, sou acolhida enquanto dirigente associativa. Na Europa garante-se o direito à felicidade e concretização individual de cada um. Na Europa os Governos esforçam-se para que eu conheça os meus direitos e deveres de cidadã. Na Europa, não sou escrava do meu trabalho, porque sei que os direitos dos trabalhadores são tutelados. Na Europa confio nas forças de segurança, e sei que todos os serviços me serão prestados, e sê-lo-ão com o mesmo cuidado a um sem-abrigo e a um rei. Na Europa, sempre vivi numa sociedade que por mais tumultos políticos tenha, coexisto em harmonia com as outras pessoas de todos os géneros, todas as idades, com todas as preferências sexuais, de todos os credos e raças, de todos os meios socioeconómicos Esta é a Europa de união monetária, económica, social e política em que tanto gosto de viver. Mas é uma Europa que eu reconheço cada vez menos. É esta  Europa pela qual eu, e todos os jovens, temos de lutar e defender, até às últimas consequências.

 Temos o dever de não baixar os braços, eleitores hoje, eleitos amanhã, de nós é que a Europa é feita. Somos a geração Erasmus. Somos quem vai construir a Europa do amanhã, dos nossos filhos. O que está em causa é o futuro, tanto em termos geopolíticos globais e de balance of power como em termos pessoais e individualizados. Todo o fundamento filosófico e ideológico do Projeto Europeu se deposita agora nas nossas mãos; todas as garantias que asseguram a dignidade da pessoa humana de cada pessoa que habita na Europa; é a paz, a estabilidade, a segurança e a liberdade que permite a cada um escolher-se.

Vamos às urnas, de 22 a 25 de Maio de 2014. Vamos às urnas não enquanto jovens passivos, não enquanto cidadãos nacionais oprimidos e condicionados, não enquanto europeus indiferentes. Cai sobre nós o ónus de nos informar e ascendermos à dignidade da nossa condição; somos jovens ativos e participativos, somos europeus convictos em primeiro lugar, e damos corpo à geração mais preparada e educada da História da Humanidade e também da Europa. Faço votos para que a adesão a este ato eleitoral seja esmagadora e seja expressiva do que nós queremos e devemos construir: uma Europa pensada e refletida, combativa da austeridade cega, opressiva e assassina, que vote massivamente em partidos com políticas alternativas que cujas medidas zelem pela condição real das pessoas e assegurem também o equilíbrio económico intergeracional – sem sufocar, sem esmagar, sem matar. Este Maio vamos dar o primeiro passo na construção de uma Europa a vinte e oito mãos, por 508 milhões de pessoas que querem participar, pensar-se, mudar-se, refletir-se e crescer em Democracia, em Igualdade, em direitos e garantias, em Liberdade e em Justiça. Tudo começa agora para Ser Europa, e tornarmo-nos uma Europa melhor.